Enciclopédia do MYTHENOR

Mitologia Tupi-Guarani e Folclore Brasileiro

Quem eram

Os povos de línguas tupi-guarani viviam, quando os europeus chegaram em 1500, de ponta a ponta do litoral brasileiro e em grandes áreas do interior, da foz do Amazonas ao rio da Prata. Eram agricultores de mandioca e milho, pescadores e navegadores de rios e mares. Não são um povo do passado: Guarani Mbya, Kaiowá e Ñandeva, Tupinambá de Olivença, Tenetehara e muitos outros vivem hoje no Brasil, no Paraguai, na Argentina e na Bolívia, com suas línguas, rezas e histórias. Esta região do Códice também reúne o folclore brasileiro, nascido do encontro entre saberes indígenas, tradições ibéricas e heranças africanas. Parte dele foi registrada por jesuítas e cronistas coloniais, como Anchieta e Gândavo, sempre com olhar europeu; outra parte, por folcloristas como Câmara Cascudo e Monteiro Lobato. Por isso, cada verbete indica de onde vem cada figura: da tradição indígena, do folclore mestiço ou da imaginação do MYTHENOR.

Cosmologia

Não existe uma única cosmologia tupi: cada povo tem a sua. Entre os Guarani Mbya, Nhanderu, o primeiro pai, surge no meio da escuridão original, alimentado pelo beija-flor, e cria a terra; outras divindades guardam os pontos cardeais, e Tupã, senhor das águas e dos trovões, mora no oeste. As narrativas dos Apapocuva-Guarani, registradas por Curt Nimuendajú em 1914, falam de um mundo já destruído por um dilúvio e da busca pela terra sem mal, yvy marã e'ỹ, que moveu grandes migrações. Em muitos relatos, o Sol e a Lua são irmãos gêmeos cuja mãe foi morta pelas onças celestes. O céu também é calendário: constelações como a Ema, a Anta e o Homem Velho marcam o tempo das chuvas e da seca, do plantio e da colheita. No folclore brasileiro, a mata e os rios têm donos, como a Caipora e o Curupira, e os encantados vivem em cidades no fundo das águas.

Panteão

Nhanderu é o criador dos Guarani Mbya. Tupã, cujo nome quer dizer trovão, governa chuvas e raios; os jesuítas usaram seu nome para traduzir o Deus cristão. O Sol, kûarasy ou Kuaray, e a Lua, îasy ou Jasy, são em muitas narrativas irmãos gêmeos, ambos masculinos; os nomes Guaraci, Jaci e Rudá como trindade vêm sobretudo de Couto de Magalhães, em 1876, e são debatidos. Anhangá protege os animais caçados e foi transformado em demônio pelos missionários. Curupira e Caipora guardam a mata; Iara, a Boiúna e o Boto reinam nas águas. Do encontro colonial vieram o Saci, a Mula-sem-Cabeça, o lobisomem, o Corpo-Seco e muitas assombrações do interior.

No MYTHENOR

No MYTHENOR, esta é a região Coração da Mata, sob o Céu de Jaci, tecido com cantos, histórias de roda e respeito aos encantados. Pedir licença à mata é lei. A guardiã Jaci-Miri protege o fio de lua na Samaúma-Mãe, e a heroína jogável é Potira Arco-de-Brasa. O silêncio chega: os encantados se calam, o rio esquece o curso, e até a Mula-sem-Cabeça chora porque ninguém mais tem medo dela. As rimas antigas da região criam o Boitatá e o Mapinguari, e o campo Mata Fechada sob a Lua de Jaci fortalece Espíritos e Bestas contra o fogo.

Nota de respeito

Os povos tupi, guarani e tantos outros povos indígenas do Brasil estão vivos, e suas tradições também. Pajés, rezas, cantos, o maracá, o tabaco e a pintura corporal são sagrados e pertencem a cada povo, com regras próprias; no jogo, aparecem como homenagem e nunca como descrição de rituais reais. Muitas cartas são criações do MYTHENOR inspiradas em animais, lugares e costumes, e cada verbete diz isso com clareza. Registros coloniais e do século XIX, como os de jesuítas e de Couto de Magalhães, trazem visões europeias e devem ser lidos com cuidado. Para ir além, ouça os próprios povos indígenas, suas organizações, escolas e artistas.

Fontes

  1. Tupí-Guaraní — Encyclopaedia Britannica
  2. Guarani Mbya — Povos Indígenas no Brasil — Maria Inês Ladeira / Instituto Socioambiental
  3. As lendas da criação e destruição do mundo como fundamentos da religião dos Apapocúva-Guarani — Curt Nimuendajú
  4. A religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribos tupi-guaranis — Alfred Métraux
  5. Dicionário do Folclore Brasileiro — Luís da Câmara Cascudo
  6. Constelações indígenas: o céu Tupi-Guarani — Invivo — Museu da Vida, Fiocruz

As 120 cartas